18 de out de 2010

Carta a seus irmãos e irmãs (fevereiro, 1854)



CARTA A SEUS IRMÃOS E IRMÃS*
Mikhail Bakunin

Meus queridos amigos! Eu sei a que perigo terrível eu vos exponho ao escrever esta carta. Todavia, eu a escrevo; daí vocês concluirão o que é (palavra ilegível) grande para mim a necessidade de me explicar com vocês, e de dizer, ainda que fosse uma única vez mais, sem dúvida a última, em minha vida, livremente, sem coação, o que eu sinto, o que eu penso É a primeira vez, e será a última também que eu farei com que vocês corram um risco. Esta carta é minha suprema e última tentativa de me reconciliar com a vida: uma vez bem esclarecida minha posição, eu saberei se devo esperar ainda na esperança de poder me tornar útil segundo as idéias que eu tinha, segundo as idéias que ainda tenho e que sempre serão as minhas, ou se devo morrer.
Não me acusem nem de impaciência, nem de fraqueza; seria injusto. Perguntem, ao contrário, ao meu capitão, agora major, ele repetirá a vocês o que me disse com freqüência; que raramente ele viu um prisioneiro tão racional, tão corajoso quanto eu; estou sempre de bom humor, estou sempre rindo, - e, entretanto, vinte vezes por dia eu gostaria de morrer, de tanto que minha vida se tornou penosa. Sinto que minhas forças se esgotam, minha alma ainda está forte, mas meu corpo se enfraquece; a imobilidade, a inação forçada, a falta de ar e sobretudo um cruel momento interior que somente um prisioneiro isolado como eu poderá compreender, e que não me dá descanso nem de dia, nem de noite, desenvolveram em mim os germes de uma doença crônica que, por não ser médico, eu não posso definir, mas a cada dia se faz sentir em mim de uma maneira mais desagradável - são, eu penso, hemorróidas, complicadas por outros fatores que eu ignoro; os males de cabeça não me abandonam quase nunca; meu sangue está em plena revolta, sobe ao meu peito, à minha cabeça, e me sufoca a ponto de me tirar a respiração durante horas inteiras, e quase sempre escuto em meus ouvidos um barulho parecido com aquele que produz a água fervente; duas vezes por dia, infalivelmente, eu tenho febre, antes do meio-dia e à noite, e durante o resto do dia sinto-me atormentado por um mal-estar interior que queima meu corpo, embaraça minha cabeça e parece me querer devorar lentamente; - vocês me verão; você me encontrará bem mudado, Tatiana, mesmo depois da última vez que nos vimos; uma vez tive a ocasião de me contemplar num espelho e me achei terrivelmente feio. Quanto a isso, eu me preocupo pouco; renunciei, já faz muito tempo, aquilo que os velhos como eu chamam de vaidade, e que os jovens denominam, com mil vezes mais razão, a própria essência da vida; para mim permaneceu apenas um único interesse, um único objeto de culto e de fé, - vocês o denominaram e, se não posso viver para ele, não quero viver absolutamente. Pouco me importa minha feiura, pouco me importaria também com esta doença se ela quisesse me levar a galope; eu não pediria nada melhor do que partir bem rápido com ela; mas rastejar lentamente para o túmulo, embrutecendo-me durante o percurso, eis a que eu não posso consentir. Minha moral ainda se mantém; minha cabeça está lúcida apesar de todos os males que, em regra, fazem dela sua residência; minha vontade, espero, não se dobrará nunca; meu coração parece de pedra, é verdade, mas dêem-me a possibilidade de agir e ele resistirá. Nunca, segundo me parece, tive tantas idéias, nunca ressenti uma sede tão ardente de movimento e de ação. Eu, portanto, ainda não estou completamente morto, mas esta vida da alma que, ao se concentrar, tornou-se mais profunda, mais possante talvez, mais desejosa de se manifestar, torna-se para mim uma fonte inexaurível de tormentos que eu sequer tentarei descrever. Vocês não compreenderão nunca o que é sentir-se enterrado vivo; dizer-se a todo instante na noite assim como durante o dia: eu sou um escravo, estou anulado, reduzido à impotência por toda a vida, por escutar mesmo da minha cela o murmúrio da grande luta que se prepara, de uma luta em que se decidirão as mais importantes questões da humanidade, e ter de permanecer imóvel e mudo. Ser rico de pensamentos, dentre os quais pelo menos uma parte poderia ser útil, e não poder realizar nenhum; sentir o amor no coração, sim, amor, apesar desta petrificação exterior, e não poder derramá-lo sobre nada ou sobre ninguém. Enfim, sentir-se pleno de devoção, capaz de todos os sacrifícios, de heroísmo mesmo, para servir uma causa mil vezes santa e ver todos estes arrebatamento tos se quebrarem contra quatro muros nus, minhas únicas testemunhas, meus únicos confidentes! Eis minha vida! E tudo isso não é nada em comparação com uma idéia igualmente terrível: a do idiotismo que está fatalmente no fim de semelhante existência; tranquem o maior gênio numa prisão isolada como a minha e vocês verão que após alguns anos um Napoleão se tornará estúpido, e Jesus Cristo, ele próprio, perverso; eu que não sou grande como Napoleão, nem infinitamente bom como Jesus Cristo, precisaria de muito menos tempo para me embrutecer completamente. Não é verdade que a perspectiva é gozadora? Eu ainda estou, e não me lisonjeio, de posse de todas as minhas faculdades intelectuais e morais; mas sei que isto não pode durar tanto tempo assim; minhas forças físicas já se enfraqueceram muito; em breve será a vez de minhas forças interiores. Eu espero que vocês compreendam que todo homem que se respeite um pouco deve preferir a mais cruel morte a esta lenta e desonrosa agonia. Ah! Meus queridos amigos, creiam no que digo, qualquer morte é preferível ao isolamento tão enaltecido pelos filantropos americanos. Por que esperei tanto tempo? Quem poderá dizê-lo; vocês não sabem o quanto a esperança é tenaz no coração do homem. Qual, vocês me perguntarão? A de poder recomeçar aquilo que já me trouxe aqui, somente com mais sabedoria e mais cautela talvez, pois a prisão teve pelo menos isso de bom para mim, ela me deu o jazer e o hábito de refletir, ela, por assim dizer, solidificou meu espírito; mas ela nada mudou de meus antigos sentimentos, ela, ao contrário, os tornou mais ardentes, mais resolutos, mais absolutos do que nunca, e de agora em diante tudo o que me resta de vida se resume numa única palavra: liberdade.

*Fortaleza Pedro e Paulo. Fevereiro de 1854. Kornilov, Gody Stranstvij, op.cit. pp.495-496.

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