18 de out de 2010

Carta aos redatores do boletim da Federação do Jura (junho, 1872)



CARTA AOS REDATORES DO BOLETIM DA FEDERAÇÃO DO JURA*

Mikhail Bakunin
Caros companheiros de desgraça!

A espada de Democles, com a qual nos ameaçaram por tanto tempo, acaba, enfim, de cair sobre nossas cabeças. Não é exatamente uma espada, mas a arma habitual do Sr. Marx, um monte de imundícies.


Com efeito, na nova circular privada do Conselho Geral de Londres, datada de 5 de março de 1872, mas entregue à publicidade, segundo parece, somente nesses últimos dias, nada falta: invenções ridículas, falsificações de princípios e de fatos, insinuações odiosas, mentiras cínicas, calúnias infames, enfim, todo o arsenal guerreiro do Sr. Marx em campanha. É uma coletânea mediocremente sistematizada de todas as histórias absurdas e imundas que a maldade mais perversa do que espiritual dos judeus alemães e russos, seus amigos, seus agentes, seus discípulos e, ao mesmo tempo, os lacaios executores de suas grandes obras, propagou contra todos nós, mas sobretudo contra mim, durante três anos aproximadamente, e principalmente desde esse infeliz Congresso de Basiléia, no qual ousamos votar, com a maioria, contra a política marxista.

Lembro-me ainda da exclamação pronunciada nessa ocasião, diante de mim, por um dos signatários da referida circular: “Marx wird sehr unzufrieden sein. - Marx ficará furioso!” E com efeito, ele ficou furioso; e eu, o bode expiatório condenado pela furiosa sinagoga a padecer por nossos pecados coletivos, fui o primeiro a sentir o efeito disso. Vós vos lembrais do artigo do judeu alemão Maurice Hess em Le Réveil (no outono de 1869), reproduzido e desenvolvido logo depois pelos Borkheim e outros judeus alemães do Volksstaat? Eu vos poupo do pequeno judeu russo de L’Egalité de Genebra. Foi como uma inundação de lama contra mim, contra todos nós.

Durante dois anos e meio nós suportamos em silêncio esta agressão imunda. Nossos caluniadores haviam inicialmente começado por vagas acusações, misturadas com covardes reticências e insinuações venenosas, mas ao mesmo tempo tão estúpidas, que por falta de outras razões para me fazer calar, o desgosto somado ao desprezo que elas tinham provocado em meu coração teria sido suficiente para explicar e legitimar meu silêncio. Posteriormente, encorajados por essa indulgência, da qual eles não souberam advinhar as verdadeiras razões, levaram sua suja maldade até a me apresentar como um agente assalariado paneslavista russo, napoleônico, bismarckiano, quem sabe até mesmo papal...

Era realmente muito estúpido responder a isso. Mas tive, para guardar silêncio, razões bem mais importantes do que o desgosto natural que sentimos em lutar contra a lama. Eu não quis fornecer um pretexto a esses dignos cidadãos, que evidentemente buscavam um, para poder reduzir ao seu nível um grande debate de princípios, transformando-o numa miserável questão pessoal. Eu não quis tomar nenhuma parte na terrível responsabilidade que deve recair sobre aqueles que não temeram introduzir nesta Associação Internacional dos Trabalhadores, da qual o proletariado de tantos países espera hoje sua salvação, o escândalo das ambições pessoais, os germes da discórdia e da dissolução. Eu não quis absolutamente oferecer ao público burguês o espetáculo, tão triste para nós, tão reconfortante para ele, de nossas dissensões internas.

Enfim, pensei que devia me abster de atacar, diante deste mesmo público, uma súcia na qual, gosto de reconhecer, há homens que prestaram incontestáveis serviços à Internacional.

Sem dúvida, esses homens se desonram, hoje, e causam um grande dano à Internacional ao se servirem da calúnia para combater adversários que eles desesperam provavelmente em aniquilar pela força de seus argumentos. Sem dúvida, ao seu grande zelo pela causa do proletariado soma-se, de um modo bastante desagradável, uma considerável dose de pretensões vaidosas e opiniões ambiciosas, tanto pessoais quanto de raça... Mas não é menos verdade que esse zelo é sincero. Pelo menos, estou perfeitamente convencido disso, não em relação a todos, mas a um grande número dentre eles; e como eles são todos solidários, tive que me abster de atacar uns para poder poupar os outros.

Assim, sempre me resguardei de chamar todos meus caluniadores diante de um júri de honra que o Próximo Congresso Geral, sem dúvida, não me recusará. E por pouco que este júri me ofereça todas as garantias de um julgamento imparcial e sério, poderei lho expor com detalhes necessários todos os fatos, tanto políticos quanto pessoais, sem temor pelos inconvenientes e pelos perigos de uma divulgação indiscreta.

Mas há um outro fato, de caráter totalmente público, e que a calúnia marxista, referendada desta vez por todos os membros do Conselho Geral, desnaturou consciente e maldosamente.

Restabelecê-los em sua verdade, contribuindo, na medida de minhas forças, à demolição do sistema de mentiras edificado pelo Sr. Marx e seus acólitos, tal será o objeto de um texto que eu me proponho publicar antes da reunião do congresso.

Terminarei esta carta por uma última observação. Nada prova melhor a dominação desastrosa do Sr. Marx no Conselho Geral do que a referida circular. Percorrei os nomes dos quarenta e sete signatários e encontrareis somente sete ou oito que puderam se pronunciar neste caso com algum conhecimento de causa. Todos os outros, instrumentos complacentes e cegos da cólera e da política marxista, referendaram uma condenação infame contra nós, a quem jamais viram, nem ouviram falar, a quem julgaram e executaram sem terem sequer se dignado nos dirigir uma pergunta!

É assim, pois, que no Conselho Geral de Londres entende-se a justiça, a verdade, a moral que, segundo as considerações de nossos estatutos gerais, devem servir de bases a todas as relações, tanto coletivas quanto individuais na Associação Internacional dos Trabalhadores? Ah! Senhor Karl Marx, é mais fácil colocá-las à frente de um programa do que exercê-las! Dir-se-ia que neste momento em que a Federação belga questiona a existência ulterior do Conselho Geral, todos os membros deste Conselho se sentiram orgulhosos em provar, não somente que sua instituição tornou-se inútil, mas que ela nada mais é hoje do que uma instituição malfazeja.

Saudações e solidariedade.

*Lucarno. 12 de junho de 1872.

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