18 de out de 2010

Carta a Nikolai Ogarev (novembro, 1874)



CARTA A NIKOLAI OGAREV*
Mikhail Bakunin

Assim, caro e velho amigo, eis que partiste para bem longe. Tranqüiliza-me; escreve-me, porque distante deles, os Herzen não te esquecerão nem te deixarão sem ajuda financeira, na miséria e na dificuldade, insuportáveis a um homem de tua idade e, além do mais, doente. Este é o primeiro ponto. Eis o segundo; deves ter encontrado em Londres um meio russo, ou mesmo um único russo com o qual podes ter trocado algumas francas palavras sobre a situação da Rússia, a qual, como sempre, te interessa com certeza mais do que qualquer outra coisa no mundo. É certo, Lavrov vive em Londres com todo seu clã. Mas quando o conheceres melhor, ele e todos os outros, duvido que te pareça oportuno estabelecer com eles relações de boa fé. A propósito, leste minha última brochura anônima: Anarquia e Estado? Se ainda não leste, escreve-me, eu a enviarei.


Mas, sobretudo, peço-te uma vez mais, escreve-me com quem e como tu vives, quais são as pessoas que vês e com quem passas teus dias. Eu temo que as relações inglesas de tua esposa (sem o pope) - tua esposa, à qual peço-te que dês minhas lembranças - sejam para ti não muito interessantes e que te sintas, hoje, em Londres, mais só do que nunca e do que em qualquer outro lugar - e em nossa idade isto é um sentimento penoso. Um único consolo: a morte que se aproxima. O sino soou muito; agora abandona o campanário.[7] Eu mesmo, meu velho amigo, coloquei-me à distância, e desta vez radical e irrevogavelmente, de toda atividade real, de todo contato por empreendimentos de ordem prática. Primeiramente, porque a época atual não convém, decididamente, para ações deste gênero. O Bismarckismo, ou seja, o militarismo, a polícia e o monopólio das finanças confundidos num único e mesmo sistema que se chama Estado moderno, triunfa em todos os lugares. Talvez durante dez ou quinze anos esta potente e científica negação de tudo o que é humano continue ainda seu triunfo. Não digo que atualmente não se tenha nada a fazer, mas esta nova ação exige novos métodos e sobretudo forças novas e jovens, e sinto que não valho nada para esse combate. Foi por isso que apresentei minha demissão sem esperar que algum impertinente Gil Blas venha me dizer: “Monseigneur, plus d’homélies!”[8] Minha saúde não cessa de piorar, de forma que me tomei completamente inapto para novas tentativas ou ações revolucionárias aleatórias. Desde então retirei-me ao seio de minha família, vinda da Sibéria, e moramos todos juntos em Lugano, e não Locarno.

Com certeza deves ter ouvido falar, várias vezes, no ano passado, que eu comprei uma grande propriedade perto de Locarno; e, sem dúvida, como muitos outros, deves ter perguntado onde consegui dinheiro para esta aquisição. Eis, para ti, a solução do enigma: eu nunca fui o proprietário, fui unicamente um prête-nom9 para meu rico amigo Cafiero. Ficou decidido que eu seria o proprietário de nome, a fim de que eu pudesse adquirir a cidadania; o que nos pareceu necessário, pois um cidadão não pode ser expulso do cantão de Tessin, e minha estada neste cantão havia sido julgada indispensável. Assim, passei por proprietário, por burguês; e não somente não me aborreci por me terem considerado como tal, mas fazia mesmo tudo que era possível para que esta nova reputação se espalhasse o máximo possível. Quanto mais burguês eu pudesse parecer, mais útil e mais segura seria minha atividade anônima.

Mas hoje, tendo definitiva e irrevogavelmente renunciado a esta atividade, não preciso mais de máscara; devolvi minhas plumas de pavão, quero dizer, a propriedade, a seu verdadeiro proprietário, a meu amigo Cafiero; eu próprio me distanciei e resido agora, com minha família, em Lugano. Compreendestes? Se, sim, guarda isto para ti e não repitas a ninguém o que acabo de te dizer.

Fora isso, não cruzo os braços, trabalho muito. Primeiramente, escrevo minhas memórias; e, em segundo lugar, simultaneamente, proponho-me a escrever, se minhas forças o permitirem, uma última palavra sobre minhas convicções mais íntimas, eu leio enormemente. Tenho atualmente três livros à mão: Kolb’s Culturgeschichte der Menschheit, Autobiography de Stuart Mill e Schopenhauer.

Leste a Autobiografia? Se ainda não o fizeste, não deixes absolutamente de fazê-lo. A obra é, ao mais elevado ponto, interessante e instrutiva. Do teu lado, escreve-me sobre o que lês; e, se valer a pena, recomenda-me. Chega de ensinar, nós iremos, amigo, nos dedicar em nossos velhos dias, a aprender. É mais divertido.

Escreve o mais rápido possível. Eis meu endereço: Suíça Lugano, Caixa Postal. Senhor M. Bakunin.
Eu te abraço, velho amigo, e lembranças de minha parte a Miss Mary. Responde-me rapidamente.
Teu M. Bakunin

*Lugano. 11 de novembro de 1874.

[7] Provérbio Russo.
[8] Esta frase está em francês no texto original.

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