18 de out de 2010

Carta a Alexandre Herzen (1860)



CARTA A ALEXANDRE HERZEN*
Mikhail Bakunin

Tenho a intenção de enviar a você, em breve, um jornal detalhado de meus fatos e gestos, desde nosso último adeus da Avenida Marigny, mas hoje eu direi algumas palavras de minha presente situação. Preso um ano em Saxe, inicialmente em Dresde, depois em Königstein, aproximadamente um ano em Praga, cinco anos em Olmutz, completamente acorrentado e, em Olmutz, até mesmo acorrentado ao muro, fui em seguida transportado para a Rússia. Na Alemanha e na Áustria minhas respostas às questões foram muito curtas: “Vocês conhecem meus princípios, eu os publiquei e fi-los conhecer em alta e inteligível voz; eu quis a unidade de uma Alemanha democrática, a libertação dos eslavos, a destruição de todos os reinos cimentados pela violência, antes de tudo, a destruição do império austríaco; apanhado de armas na mão, vocês têm muitos elementos para me julgar. Eu não responderei mais a nenhuma de suas questões”.Em maio de 1851 fui transferido para a Rússia, diretamente para a fortaleza Pedro e Paulo, na fortificação Aleksei, onde permaneci encarcerado por três anos. Dois meses após minha chegada, o conde Orlov veio ver-me em nome do monarca. “O soberano me enviou a você e me ordenou dizer-lhe: “Diga-lhe que me escreva, como um filho espiritual escreve a um pai espiritual”; você quer escrever?” 


Eu refleti um pouco e disse a mim mesmo que, diante de um júri, num processo público, eu deveria manter meu papel até o fim, mas entre quatro paredes, à mercê do urso, eu podia sem vergonha suavizar as formas; pedi então prazo de um mês; eu aceitei - e efetivamente escrevi um tipo de confissão, alguma coisa no tipo de Díchtung und Wahrheit; meus atos eram, por sinal, tão manifestos, que eu não tinha nada a esconder. Após ter, em termos gentis, agradecido ao monarca por sua complacente atenção, acrescentei: “Sire, Vós quereis que eu vos escreva minha confissão, está certo, eu a escreverei, mas sabeis que na confissão ninguém é obrigado a declarar os pecados de outro. Após meu naufrágio, só me resta um único tesouro, a honra e o sentimento de que não traí nenhum daqueles que confiaram em mim; conseqüentemente, não delatarei ninguém”. Dito isso, com algumas exceções, contei a Nicolau toda minha vida no estrangeiro, inclusive todos os meus projetos, impressões e sentimentos, o que fez com que ele apresentasse múltiplas observações edificantes em relação à sua política interior e exterior. Minha carta, que levava em consideração, inicialmente, a situação perfeitamente clara e aparentemente sem saída na qual eu me encontrava e, por outro lado, o caráter enérgico de Nicolau, era escrita de modo muito firme e determinado - e foi por isso que ela lhe agradou muito. Por que, no fundo, eu lhe sou agradecido? É que após tê-la recebido, ele nunca mais me interrogou sobre assunto nenhum. Encarcerado durante três anos na fortaleza Pedro e Paulo, fui transferido no inicio da guerra de 1854 para Schlüsselburg, onde permaneci detido ainda três anos. Atingido pelo escorbuto, perdi todos os meus dentes. A prisão perpétua é uma coisa terrível, levar uma vida sem objetivo, sem esperança, sem interesse. Dizer a si mesmo todos os dias: “Eu me tornei hoje um pouco mais imbecil e amanhã serei ainda mais imbecil”. Com uma horrorosa dor de dentes que durava semanas e voltava pelo menos duas vezes por mês; não podendo dormir de dia nem de noite, fizesse o que fizesse, lesse o que lesse; e mesmo durante o sono sentir no coração e no fígado uma dor alucinante, com este sentimento fixo: eu sou um escravo, eu sou um morto, eu sou um cadáver. Entretanto, não perdi a coragem; se a religião se manteve em mim, ela se desmoronou definitivamente nas fortalezas. Eu só tinha um desejo: não capitular, não me resignar, não me abaixar até procurar um consolo em não sei qual engano, guardar até o fim, intacto, o sentimento sagrado da revolta. Morto Nicolau, pus-me a esperar mais vivamente. Houve a coroação, a anistia. Alexandre Nikolaevitch, de seu próprio punho, riscou meu nome da lista que lhe haviam apresentado; e quando, um mês mais tarde, minha mãe lhe implorou que me concedesse o perdão, ele lhe respondeu: “Saiba, Senhora, que enquanto vosso filho viver, jamais ele poderá ser livre”. Depois disso, eu prometi a meu irmão Alexei, que tinha ido me visitar, aguardar com paciência ainda um mês; passado este prazo, se eu não tivesse recuperado a liberdade, meu irmão prometia me trazer veneno. Um mês se esgotou: recebi uma intimação para escolher entre a fortaleza ou a deportação para a Sibéria. É claro que escolhi a deportação. Minha libertação da fortaleza não foi obtida facilmente; o monarca, teimoso como uma mula, recusou diversas vezes; um dia, entrou no gabinete do príncipe Gorchtakov (o ministro das Relações Exteriores), com um carta na mão (precisamente a carta que eu escrevera em 1851 a Nicolau) e lhe disse: “Mas eu não vejo o mínimo arrependimento nesta carta”; o idiota, ele queria um arrependimento! Finalmente, em março de 1857, sal de Schlusselburg; passei uma semana nos locais da III Seção e, com o consentimento do monarca, vinte e quatro horas com a minha família, no campo; em abril, fui conduzido a Tomsk. Vivi lá aproximadamente dois anos e conheci uma encantadora família polonesa, cujo pai, Ksaverii Vasilievitch Kwiatkowski trabalha na indústria aurífera. A uma versta1 da cidade, no campo, ou, como se diz na Sibéria, nas terras de Astangovo, esta família habitava numa pequena casa, onde a vida passava na tranqüilidade e no respeito das velhas tradições e costumes. Tomei o hábito de ir lá todos os dias e propus-me a ensinar o francês, etc., às duas moças; liguei-me efetivamente com minha esposa, ganhei sua inteira confiança (eu a amei apaixonadamente, ela também estava apaixonada por mim), de modo que a desposei; e já faz dois anos que estou casado e muito feliz. É bom viver não para si, mas para um outro, sobretudo quando este outro é uma mulher gentil; eu me entreguei inteiramente a ela e, de seu lado, ela divide pelo coração e pelo espírito todas as minhas aspirações. Ela é polonesa, mas não é católica por convicções; de modo que ela também está isenta de fanatismo político; é uma patriota eslava. O governador-geral da Sibéria ocidental, Hasford, solicitou, sem que eu tivesse conhecimento, o consentimento do monarca para que eu tivesse um emprego civil, primeiro passo rumo à minha libertação da Sibéria; mas eu não me resolvi a aproveitar disso; pareceu-me que carregando a insígnia com as cores nacionais perderia minha pureza e minha inocência; assim, fiz os contatos para obter minha transferência para a Sibéria Oriental e foi com grande dificuldade que eles deram bons resultados; souberam das simpatias que teria por mim Muraviev, que veio me descobrir em Tomsk, e manifestou abertamente, publicamente, sua estima. Por muito tempo não consentiram (na minha transferência), finalmente tive o consentimento. Em março de 1859, instalei-me em Irkutsk, onde entrei para o serviço da Companhia (fluvial) do Amur, que tinha acabado de ser fundada; no verão seguinte, naveguei por toda a Transbaicália, mas no início de 1860 deixei a Companhia, convencido de que nada havia a aproveitar disso. Neste momento, procuro um emprego na indústria aurífera, com Benardaki; minhas tentativas ainda não deram resultado; eu gostaria de não precisar do apoio de meus irmãos. Eles não são ricos; além do mais, sem esperar a decisão de Petersburgo, eles emanciparam seus camponeses; eles lhes deram terras e fizeram todos os trabalhos através da mão-de-obra remunerada, o que resultou numa grande perda de capital. De qualquer modo, eu vivo aqui em condições bastante difíceis, mas espero que meus negócios não demorem a melhorar.

*1860. Pis’ma M. A. Bakunina, op-cit, PP.70-33
[1]Medida russa, equivale a 1.067 metros.

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